Antigo JSC. Arquivo Histórico de Blumenau.

Conversa amena e pedido negado.

No começo de 1990, o prefeito de Blumenau, na busca de recursos para acelerar obras importantes da cidade, pediu audiência ao Governador do Estado Casildo Maldaner, recém-empossado em razão do falecimento do titular Pedro Ivo Campos. A conversa, da qual participei, foi bastante amigável, apesar das óbvias divergências político-partidárias. Porém, no que dizia respeito à ajuda estadual para Blumenau, o Governador apresentou um argumento contrário e bastante lógico: ele havia assumido há poucos dias, a arrecadação não estava se comportando bem, nessas condições ficaria numa posição muito difícil se atendesse Blumenau porque não teria condições de atender diversos outros que tinham também pedido audiência com ele, quase todos, de seu próprio partido.

O sinuqueiro prepara seu lance.

Reconhecido como um craque da sinuca desde seu tempo de estudante em Porto Alegre, Vilson Kleinubing não era alguém fácil de ser descartado com uma conversa padrão. Ele chegou lá bem preparado para qualquer situação que, para ser desenrolada, necessitasse de algum expediente fora do comum.

Quando o Governador encerrou, muito sério, sua bem armada negativa, Vilson falou com tranquilidade, respeito e sincera empatia. Disse que se solidarizava com seu interlocutor, que todas aquelas aflições eram compreensíveis, que ele também passava lá na Prefeitura por perrengues semelhantes, embora menores.

Enquanto isso, se organizava mentalmente para a réplica.

A tacada de mestre.

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Na sequência, Vilson tocou a bola branca com a maestria que lhe era peculiar. Lembrou ele que o Governador já estava às voltas, ou estaria em breve, com a questão do reajuste do funcionalismo que, nessa época exdrúxula, era feito mensalmente por força da Lei Estadual nº 7.588 de maio de 1989. E por consequencia lógica da destrambelhada inflação.

Os sindicatos estariam pedindo mais de 80% de aumento já que o índice oficial da desvalorização da moeda no mês de fevereiro de 1990 foi superior a 75%. O Prefeito observou que sua solicitação para uma obra muito importante em Blumenau era de tantos cruzados novos e, para exemplificar, acrescentou que, numa negociação como a do reajuste, se o Governo desse um ou dois por cento por cento a menos do que a Fazenda previa, não faria muita diferença para o funcionalismo ou para a imprensa.

Numa bagunça como essa, em que o inchaço monetário chegou a mais de 1.700% ao ano, de fato dois por cento a mais ou a menos passariam despercebidos. Os números eram muito grandes. E com dois por cento que economizasse ali, disse o Prefeito, o Governador poderia acolher a solicitação de Blumenau e, certamente, de mais umas dez ou doze outras prefeituras que ainda quisesse atender. Porque não fazer isso?

A curiosa reação de Maldaner.

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Casildo olhou para Vilson, primeiro com incredulidade, depois com o ar de quem descobriu o segredo de algum enigma. Então falou: “E não tem nenhum idiota aqui nesse Palácio que pudesse ter me explicado isso?!”

O Prefeito Vilson Kleinubing e eu, saímos do Gabinete do Governador sem saber se ele tinha ficado autenticamente surpreendido ou estava brincando conosco. Mas, em todo caso, talvez pelo inusitado rumo que a conversa tomou, o Governo atendeu à reivindicação de Blumenau. E, por certo, os pedidos “de mais umas dez ou doze outras prefeituras”.

Dois anos mais tarde.

1991: Maldaner deixa o Governo, Kleinubing assume. Foto copiada do livro de Moacir Pereira, “Kleinubing – Uma trajetória de Coerência”.

Próxima coluna.

Antigo JSC. Arquivo Histórico de Blumenau.

As angústias e incertezas do Prefeito de Blumenau nas suas últimas semanas no cargo.