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Paulo Gouvêa

A marcha pouco religiosa deu chabu – Coluna do Paulo Gouvêa

A chamada “Marcha para Jesus”, realizada em Balneário Camboriú, teve um público muito abaixo do esperado pelos organizadores, marchadores, discursadores e, particularmente pelo presumido beneficiário da manifestação, o Presidente Bolsonaro. É o que dá transformar um evento para Jesus em uma Marcha para Jair. A relação da religiosidade com a política é muito delicada e quando, no atropelo eleitoral, os mais afoitos passam do ponto, o resultado é inevitável: público escasso, reversão das expectativas, Jair se retirando em marcha batida.

Na campanha dos deputados a pesquisa é inútil

Desta vez, o foco é a eleição dos deputados. Não deste ou daquele candidato. Ainda é muito cedo para fulanizar, fazer alguma avaliação das possibilidades individuais ou mesmo das bancadas por partido. A escolha dos parlamentares é, em geral, decidida bem mais tarde pelos eleitores. E como os pretendentes a uma vaga são muitos e seus votos se esparramam por todo o Estado, qualquer pesquisa é infrutífera. Candidato que paga para ter um levantamento desses já começa do jeito errado, jogando dinheiro fora. O que um comentarista pode fazer agora é abordar algumas características próprias desse tipo de eleição, as especificidades que a torna tão diferente daquelas decididas pelo sistema majoritário de voto.

O jeito específico de buscar voto para deputado

Mesmo no que diz respeito às eleições proporcionais, há diferenças importantes entre as campanhas para angariar o voto de deputado estadual ou federal. E essas são bem diferentes daquelas dos vereadores e, claro, mais ainda, das eleições majoritárias. Os candidatos a vereador buscam o voto batendo na casa dos eleitores, abordando o povo nas paradas de ônibus, em cerimônias religiosas, festas de todo tipo, e nas saídas de fábricas (nas entradas não, porque os trabalhadores estão chegando, quase sempre apressados, e não gostam de ser interrompidos). Nenhum candidato a deputado, seja a estadual ou federal, consegue cumprir tais tarefas pessoalmente. Eles devem fazer coisa semelhante apenas na sua base principal, nos últimos dias da campanha. A votação dos candidatos a deputado depende principalmente, embora não exclusivamente, do apoio de outros personagens. A maior probabilidade é que eles catem seus votos através de prefeitos e vereadores que os apoiam, de cabos eleitorais experientes e fiéis, dirigentes municipais de seu partido, líderes de organizações religiosas, trabalhistas, e também pelo esforço e a lealdade do candidato com o qual faz a dobradinha estadual-federal. 

Três condições essenciais, segundo Gabeira 

Quando, depois de duas eleições bem-sucedidas para deputado federal, eu não consegui a segunda reeleição, fui à Câmara, no início de 2003, para a melancólica tarefa de buscar minhas tralhas, fazer as despedidas e cuidar da mudança de volta para Blumenau. Lá dentro da Câmara encontrei de passagem um dos meus colegas do mandato que estava terminando, o então Deputado (ele sim, novamente vitorioso) Fernando Gabeira. Quando soube que eu não havia me reelegido, Gabeira observou que, nos tempos de então, um candidato a deputado só conseguia ter sucesso se estivesse numa destas três categorias: ou dispunha de muito dinheiro para fazer a campanha, ou tinha o apoio de alguma organização forte como uma igreja ou um grande sindicato, ou era uma celebridade. Ele disse então que só se elegeu porque se encaixava no terceiro requisito. De fato, jornalista importante e escritor de prestígio, Gabeira era muito famoso. Para um candidato assim o voto é espontâneo, vem de graça. E eu, pensei logo, naquela ocasião não figurava em nenhuma das três categorias. Por isso e por outros fatores me dei mal.