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Paulo Gouvêa

A arte de escolher um vice – Coluna do Paulo Gouvêa

Lula já escolheu seu vice. Já tem seu José de Alencar modelo 2022. Ele se chama Geraldo Alckmin. E Bolsonaro ainda não tem. Está assim carente de parceiro de chapa porque deseja um tipo de vice que o Centrão não quer. O problema que trava o processo decisório é sua mania de perseguição, uma certa neurose que o faz imaginar que qualquer vice da área política vai ser o que ele imagina que Michel Temer foi em relação a Dilma: um reserva que conspira com os parlamentares para derrubar o titular. Por essa razão, Bolsonaro prefere um general que seja amigo dele e desprovido de ambições políticas. Já a turma da velha política, que agora é mentora e fiadora do Presidente, não vê com bons olhos uma chapa composta por um capitão e um general.

Essas especulações, porém, não fazem muito sentido. Os dois lados deveriam achá-las estranhas. Afinal, Bolsonaro tem um general de vice e nem por isso deixou de suspeitar que ele, Mourão no caso, queria ocupar seu lugar no Palácio do Planalto. E Valdemar da Costa Neto, e Ciro Nogueira, o que acham que podem oferecer para substituir o segundo militar da chapa? Algum grande empresário? Um político acima de qualquer suspeita? Acho difícil. Neste caso, a gente sabe que a fruta não cai longe do pé.

Seja como for, a questão da escolha de um vice é realmente uma arte. Quem acertou em cheio foi Fernando Henrique Cardoso com Marco Maciel. Além de lhe fornecer um substituto eventual fidelíssimo e livre de vaidades, a presença de Marco sacramentou da melhor forma possível a união dos liberais do PFL com os social-democratas do PSDB. Perfeito.

Porque Lula escolheu Alckmin  

Lula, vivaldino do jeito que é, sábio daquele jeito que não é apenas por ser velho, pensou em Alckmin prioritariamente devido à circunstância de que a retirada do ex-tucano da eleição de governador em São Paulo aumentava exponencialmente as chances do PT, com Fernando Haddad, conquistar pela primeira vez o cargo que para muitos efeitos é o segundo mais importante do País. Nas pesquisas lá da pauliceia, o primeirão era exatamente Geraldo Alckmin. O segundo era Haddad e o terceiro Marcio França. Agora sem o outrora tucano na parada, como ficou? Bidu: Haddad na cabeça. Mas, além desse esplêndido trunfo, Lula da Silva colhe outro: usa seu provável vice como uma espécie de isca, de arapuca, para pegar eleitores que não gostam de Bolsonaro, não acreditam na viabilidade da terceira via, mas, também não querem votar no PT por temor das ideias esquerdistas. Alckmin é posto lá na ponta do anzol para que esses desprevenidos votantes acreditem que o velho Lula de guerra mudou e passou a ser um vovozinho confiável. 

Federações

Terminou, há uma semana, o prazo para criação de federações partidária. A gênese desse artefato é o extraordinário poder inventivo do jeitinho brasileiro. Como os partidos não podem mais se coligar nas eleições para deputado estadual e federal, o Congresso Nacional criou um atenuante para o prejuízo que, inevitavelmente, a proibição – acrescida da cláusula de desempenho – criaria para os pequenos partidos. Foi resgatado das gavetas do Parlamento um projeto inventado no passado e abolido, algum tempo depois, antes de entrar em vigor: um tipo de aliança partidária que funciona como uma coligação, mas que, diferentemente dessa, tem de ser mantida pelo menos pelos quatro anos seguintes, com nome e sigla próprios, regras e programas idem, e bancadas unificadas. Uma das três que foram agora criadas reúne PSDB e Cidadania. Outra junta PSOL e Rede. E a terceira tem como componentes PT, PV e PCB. Na prática sete partidos se transformaram em três para quase todos os efeitos eleitorais e parlamentares num prazo de quatro anos. É uma considerável economia de letras e de discursos na Câmara, no Senado e em cada Assembleia Legislativa. E é importante lembrar que ela vale de cima para baixo, sem choro nem vela. O que foi amarrado pelos partidos e abençoado pelo TSE tem de se manter do mesmo jeito em todos os Estados. Gostem ou não gostem uns das caras dos outros.