ARTIGO: Programa cultural de SC “bate meta” em horas e levanta dúvidas sobre critério e transparência

Larisa Hemkemeier Webber de Mello
Coordenadora Estadual da ABCR – Associação Brasileira de Captadores de Recursos
Depois de um ano fechado, o Programa de Incentivo à Cultura de Santa Catarina finalmente reabriu e mostrou uma eficiência digna de aplausos… ou de investigação. Com um orçamento robusto de R$ 75 milhões, o sistema foi encerrado poucas horas após a abertura. Rápido assim.
A Fundação Catarinense de Cultura (FCC) celebrou o feito como prova do sucesso da iniciativa. E, de fato, é impressionante: em questão de horas, todo o recurso já estava comprometido. Fica apenas um detalhe incômodo quando exatamente houve tempo para analisar os projetos?
A lógica apresentada parece simples: atingiu o teto, fecha o sistema. O problema é que, nesse ritmo, a seleção pública mais parece uma corrida de 100 metros rasos do que um processo criterioso de avaliação cultural. Quem largou na frente, levou. Quem piscou, ficou de fora.
A pergunta que não quer calar e, convenhamos, nem deveria ofender é: se não houve tempo para análise, todo mundo que conseguiu se inscrever está automaticamente aprovado? E se houver projetos frágeis, mal estruturados ou até inconsistentes, passam também? Ou a análise vem depois, como um mero detalhe burocrático?
Para muitos agentes culturais, o episódio soa menos como política pública e mais como um jogo de cartas marcadas daqueles em que alguns já sabem exatamente quando e como jogar. Afinal, o dinheiro é público, mas a sensação é de que os “contemplados” já estavam, no mínimo, melhor posicionados na largada.
O que deveria ser um processo democrático, transparente e acessível acaba se transformando em um evento relâmpago, onde vencer depende mais da velocidade do clique do que da qualidade do projeto. E assim, mais uma vez, a cultura dá lugar à pressa e o interesse público, à conveniência.
Enquanto isso, fica a expectativa: haverá uma análise séria posteriormente ou o critério já foi cumprido ser rápido o suficiente? Em Santa Catarina, ao que tudo indica, incentivo à cultura também exige reflexos apurados.
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