Dra. Mariellen R. Freitas

Quando a gente fala em TDAH, muita gente ainda imagina distração, falta de foco, desinteresse. Na prática, o que se vê é outra coisa. A atenção está ali, muitas vezes
intensa demais, espalhada demais, captando tudo ao redor ao mesmo tempo. O problema não é a ausência de atenção, é a dificuldade em gerenciar o que importa agora, o que pode esperar, o que precisa ser deixado de lado.

O cérebro com TDAH percebe sons, ideias, emoções, estímulos e pensamentos em paralelo. Tudo chega junto. Falta um filtro automático que organize prioridades. Por
isso, a pessoa pode se aprofundar por horas em algo que desperta interesse genuíno e, ao mesmo tempo, travar diante de tarefas simples, repetitivas ou burocráticas. A pessoa sabe o que precisa ser feito, mas o sistema interno que organiza o tempo, começo, meio e fim funciona de um jeito diferente.

Esse sistema fica localizado principalmente no córtex pré-frontal, é a área que fica responsável por coordenar o que chamamos de funções executivas. É ele que
decide quando iniciar uma tarefa, quanto tempo dedicar, quando encerrar, como alternar entre atividades e como lidar com imprevistos. Quando esse painel de
controle não funciona de forma fluida, a vida vira um constante improviso. O dia passa rápido demais, os prazos chegam de repente, a sensação de estar sempre
atrasado acompanha mesmo pessoas competentes e responsáveis.

No TDAH, a atenção costuma depender de estímulo emocional. O cérebro engata quando algo faz sentido, desperta curiosidade ou gera desafio ou existe algum tipo
de cobrança, nesse cenário o corpo libera mais neurotransmissores que ajudam a “acordar” essa área do cérebro, que apresenta essa diferente configuração. É daí
que vem o hiperfoco, aquele estado em que o tempo some e a pessoa produz com intensidade e qualidade. Fora disso, manter constância exige um esforço
desproporcional, o que leva à procrastinação, à sobrecarga e, com o tempo, à culpa.

Quando o diagnóstico chega, especialmente na vida adulta, ele costuma reorganizar a história. Situações que antes eram lidas como falha moral passam a fazer sentido dentro de um funcionamento neurológico específico. A culpa dá lugar à estratégia e autoconhecimento, a cobrança excessiva perde a força, e surge a oportunidade de cuidar e entender a diferença de configuração ao em vez de brigar consigo mesmo.

O tratamento costuma ser transformador, entretanto também entender como o próprio cérebro opera, criar estruturas externas que ajudem a organizar o que
internamente é mais caótico, ajustar rotina, respeitar limites de energia, cuidar do sono, reduzir estímulos desnecessários é um grande divisor de águas na vida da
pessoa.

Quando isso acontece, a pergunta muda. Deixa de ser “por que eu sou assim?” e passa a ser “como posso viver melhor desse jeito?”. E essa mudança, por si só, já
transforma muita coisa.

DRA. MARIELLEN R. FREITAS, MÉDICA – CRM 32667-SC
PÓS-GRADUADA EM PSIQUIATRIA CLÍNICA PELO HOSPITAL ISRAELITA
ALBERT EINSTEIN
FELLOW EM PSIQUIATRIA GERAL (SHELTER) – NÃO ESPECIALISTA