Especial : Assembleia Legislativa

Há muitos anos, no ano novo, as esperanças dos florianopolitanos e de milhares de turistas que visitam a capital catarinense se renovam com a cena da cascata de fogos de artifícios na Ponte Hercílio Luz.

A ponte, que é símbolo de Florianópolis e um dos cartões postais do Estado, tem em sua representatividade a resiliência dos catarinenses.

Por sua história cheia de significados, de integração, de convívio com a natureza e a nossa gente, e pela resistência que foi posta à prova, diante do risco iminente de queda e de um longo período de interdição, que resultou num restauro completo, festejado como uma conquista comunitária.

Agora centenária, a Hercílio Luz é considerada um marco indelével da cidade.

É mais que uma obra de engenharia, tornou-se um monumento, obra de arte, memória de Santa Catarina.

Obra rompe isolamento da Capital e muda a história de Florianópolis

A ponte chega aos 100 anos, mas a história da ligação da Ilha de Santa Catarina ao continente antecede à obra iniciada em outubro de 1924.

O primeiro registro sobre a expectativa de se construir uma estrutura permanente de ligação com a Capital, cuja sede administrativa dependia de transporte marítimo, e de abastecimento por barcos, data de 1891.

O isolamento da cidade, ainda denominada Nossa Senhora do DesterroNome original de Florianópolis até 1º de outubro de 1894, quando o governador Hercílio Luz — o mesmo que décadas depois construiu a ponte homônima — sancionou a lei que renomeou a cidade em homenagem ao marechal Floriano Peixoto, segundo presidente da República., levava ao questionamento de muitos catarinenses sobre a possibilidade de interiorizar a Capital, levando o centro administrativo para a Serra, onde Lages era apontada como opção preferencial, ou Curitibanos.

Decisão por estrutura pênsil marcou projeto liderado por Hercílio Luz

Hercílio Luz, que governou Santa Catarina em três mandatos, tornou-se figura decisiva para a construção da ponte.

Em seu primeiro mandato, de 1894 a 1898, o assunto já era recorrente na pequena cidade onde nasceu o então governador.

No segundo, a partir de 1918, o então engenheiro formado pela Escola Politécnica do Rio de Janeiro, com passagem por universidades na Bélgica, já havia decidido empreender, tendo inclusive prometido a sua mãe que construiria a ponte quando ambos enfrentaram um dia de travessia tormentosa entre o continente, então parte do município de São José, e a já redenominada Florianópolis.

Ele conheceu na Europa várias estruturas de pontes metálicas, e decidiu por uma ponte pênsil, sustentada por cabos de tirantes que dispensavam o apoio sob o vão principal.

Encomendou o projeto com a empresa American Bridge, especializada neste tipo de obra, que se tornou a plataforma de seu terceiro mandato como governador, a partir de 1922.

A estrutura veio toda desmontada, em navios, e foram criados dois grandes canteiros de obras, em suas cabeceiras continental e insular, com centenas de operários trabalhando em cada lado.

Liderança e legado consolidaram a denominação Hercílio Luz

A ponte do Estreito, depois chamada de Ponte da Independência, acabou rebatizada em função do deterioração da saúde de Hercílio Luz.

A obra já estava adiantada quando o governador, acometido por um câncer, teve seu quadro agravado em 1924, motivando uma simbólica inauguração de uma réplica, feita em madeira.

O líder político participou do evento já fragilizado, e foi aclamado pela população. Morreu poucos dias depois, e seu nome, em reconhecimento, já estava definido para a obra, concluída em 1926.

Quando foi inaugurada, a comunidade prestigiou o ato.

Mas a travessia de um vão suspenso com mais de 800 metros sobre o canal que separava a Ilha do continente foi vista com alguma desconfiança por muita gente.

Os ônibus da época, conhecidos como jardineiras, e os carros, a maioria Ford modelo T, todos com rodas bem finas, tinham o desafio de se equilibrar sobre os pranchões de madeira que serviam de piso sobre a estrutura metálica.

Desafios operacionais e mudanças estruturais marcaram a trajetória

Em dias de chuva, quando a madeira se tornava mais escorregadia, um descuido podia fazer o motorista ter que levar a travessia com seu veículo andando com as rodas esterçadas até o final, sem conseguir voltar ao trilho original.

Situação peculiar que se manteve até 1969, quando o piso foi asfaltado.

Solução que criou uma sobrecarga não prevista no projeto original da obra, e auxiliou o desgaste da estrutura, resultando em sua interdição, em 1982.