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Procuradora-Geral de Justiça, Vanessa Cavallazzi, explicou que o mapa traz um retrato mais fiel da realidade – Imagem: Marcelo Lula

O Ministério Público lançou ontem, o Mapa do Feminicídio, um estudo inédito que reúne dados detalhados sobre a violência letal contra mulheres no estado. O lançamento ocorreu no auditório da Procuradoria-Geral de Justiça, em Florianópolis, seguido de coletiva de imprensa, e foi marcado por forte emoção com a presença de familiares de vítimas de feminicídio.

Desenvolvido pelo Núcleo de Enfrentamento a Violências e Apoio às Vítimas (NEAVIT) e pelo Escritório de Ciências de Dados Criminais (EDC), com apoio do Setor de Dados Estruturados (SDE), o levantamento analisa casos registrados entre 2020 e 2024, com atualização dos números absolutos até 2025. A proposta é transformar dados dispersos em informação clara e acessível, capaz de orientar políticas públicas, qualificar o atendimento às vítimas e fortalecer a atuação da rede de proteção.

Mais do que um levantamento estatístico, o Mapa do Feminicídio busca explicar como e em que contextos os crimes acontecem em Santa Catarina. O estudo identifica fatores recorrentes, como perfis de vítimas e agressores, vínculos entre as partes, características territoriais, circunstâncias dos crimes e histórico de violências anteriores — informações consideradas essenciais para ações de prevenção.

Durante a apresentação, a procuradora-geral de Justiça, Vanessa Cavallazzi, explicou que o mapa traz um retrato mais fiel da realidade porque não se baseia apenas nos números da segurança pública, mas na análise de todos os processos e procedimentos investigativos envolvendo mortes violentas de mulheres entre 2020 e 2024. Segundo ela, isso permitiu identificar casos que não foram inicialmente classificados como feminicídio, mas que posteriormente foram denunciados e reconhecidos como feminicídio pela Justiça, o que faz com que o número real seja maior do que o oficialmente divulgado.

A partir dessa metodologia, o estudo também revelou padrões que antes não apareciam nas estatísticas tradicionais. Um dos dados que chamou a atenção foi a existência de “corredores de feminicídio” em Santa Catarina. Embora cidades grandes concentrem números absolutos maiores, quando os casos são analisados proporcionalmente por população, regiões como a Serra Catarinense, o Oeste e o Meio-Oeste apresentam índices mais altos de feminicídio do que o litoral.

Outro ponto identificado pelo levantamento é a relação de alguns feminicídios com a atuação de organizações criminosas, com dinâmicas próprias de violência. Entre os exemplos citados estão casos de punições impostas por facções, violência como forma de controle e até assassinatos de mulheres por descumprimento de ordens impostas por integrantes desses grupos.

Vanessa também destacou que o feminicídio não pode ser analisado de forma isolada, mas como resultado de uma estrutura social e cultural que, ao longo do tempo, naturalizou a violência e a ideia de posse sobre o corpo da mulher. Segundo ela, muitos crimes acontecem quando a mulher decide encerrar o relacionamento e o agressor não aceita o fim, passando a enxergá-la como propriedade.

Websérie mostra o impacto da violência nas famílias

Procuradora Vanessa e a promotora de Justiça Chimelly Marcon falaram sobre o Mapa do Feminicídio – Imagem: Marcelo Lula

Durante o evento, o Ministério Público também apresentou a websérie “Ausências: as histórias por trás do Mapa do Feminicídio”, produzida pela Coordenadoria de Comunicação Social do MP, com apoio do Núcleo de Enfrentamento a Violências e Apoio às Vítimas (NEAVIT) — coordenado pela promotora Chimelly Marcon — e do Escritório de Ciências de Dados Criminais (EDC). A série conta as histórias de Ana Kemilli, Mônica, Eveline e Catarina, vítimas de violência de gênero nos últimos anos.

A proposta da websérie é dar rosto às estatísticas e mostrar que os casos não são números isolados. As histórias são contadas a partir da visão das famílias, mostrando o impacto do feminicídio na vida de quem fica e como essas histórias se conectam com o padrão de violência identificado no estado.

Segundo o Ministério Público, o objetivo é que tanto o Mapa quanto a websérie sejam utilizados como ferramentas de conscientização e prevenção, inclusive em escolas, universidades e empresas, ampliando o debate sobre a violência de gênero e ajudando a identificar sinais de relacionamentos abusivos antes que a violência chegue ao extremo.

A ideia, segundo a Procuradora-Geral, é justamente agir antes que o crime aconteça, utilizando informação, educação e políticas públicas para reduzir os índices de feminicídio em Santa Catarina.

A partir desta quarta-feira, o SCemPauta começa a divulgar os quatro episódios da websérie “Ausências: as histórias por trás do Mapa do Feminicídio”.