Entrevista : Udo Dohler – Prefeito de Joinville – “Os outsiders ainda não apareceram. Eles farão a diferença”

Udo Döhler de 75 anos é empresário e prefeito de Joinville no segundo mandato. Foi presidente da indústria têxtil Döhler S/A e da Associação Empresarial de Joinville (ACIJ). Também ocupou a diretoria do Conselho Deliberativo do Hospital Dona Helena. É Cônsul Honorário da Alemanha e como prefeito, abdicou do salário que é doado para instituições de caridade.

Marcelo Lula – O senhor tem constantemente sido lembrado como um possível pré-candidato a governador. O seu nome poderá estar na disputa?

Udo Dohler – Coloquei o meu nome a disposição do partido e defendo a tríplice aliança. Ela ainda existe, embora, enfraquecida quando se vê o governo votando contra ele mesmo na Assembleia Legislativa, inclusive, aumentando as despesas do Estado. Imagina, totalmente fora de algo que foi construído com o tempo. Mas é preciso reeditar a tríplice. Não digo que sou candidato e nem descarto ser, eu me coloco a disposição. Mas, existem provocações que eu acho inoportunas. Esse negócio de que vão construir uma prévia. Se for assim, mais uma vez fica no cenário o clientelismo, isso não é avanço. As bases precisam ser ouvidas.

 

Não digo que sou candidato e nem descarto ser, eu me coloco a disposição. Mas, existem provocações que eu acho inoportunas. Esse negócio de que vão construir uma prévia. Se for assim, mais uma vez fica no cenário o clientelismo, isso não é avanço. As bases precisam ser ouvidas.

 

Marcelo Lula – Essa tríplice que o senhor defende, seria com o mesmo grupo que esteve com Luiz Henrique da Silveira?

Udo Dohler – A minha leitura é que nos próximos 45 dias teremos a sinalização e veremos qual é o modelo. Cada partido tem o seu candidato, mas, a tríplice é fundamental, muito embora, precise passar por um aperfeiçoamento. Qualquer outro modelo ou arranjo no segundo turno, é temerário. Isso tudo se resolve antes de março. Quanto aos partidos, são o MDB, PSD e PSDB que elegeu o Luiz Henrique e o Raimundo Colombo duas vezes. Se o senador Luiz Henrique fosse vivo, ele seria o candidato de todos.

 

Marcelo Lula – Como o senhor analisa o cenário político estadual no momento?

Udo Dohler – Não tem novidade. O quadro sucessório começará a ser examinado neste mês. Teremos uma eleição mais complexa do que a municipal, pois, estaremos renovando o Congresso Nacional, as assembleias legislativas e elegendo o governador. Curiosamente as atenções se voltam muito para o comando do Estado, mas, isso não faz sentido. Se não houver sintonia com a formação das assembleias e o Congresso, teremos que conviver com o clientelismo político que está no dia a dia do país. Essa eleição deste ano, trata de uma primeira sinalização que indicará que está em curso um processo de mudança. Não tem como ser diferente, pois, o Brasil não suporta mais os discursos políticos repetidos em décadas. A Lava Jato nos escandaliza, mas, não é o suficiente. Ela vai terminar um dia e a vida continuará. Outra coisa é que se olharmos para maio do ano passado, os economistas diziam que o país iria levar 20 anos para sair da encrenca, pois, teríamos crescimento negativo nos próximos dois anos, somente voltando a crescer em 2020. Esses mesmos já mudaram, dizendo em outubro passado que o Brasil vai crescer neste ano devido a reforma trabalhista, e uma luz que tivemos para a reforma da Previdência. O que eu quero dizer, é que as coisas acontecem a curto prazo, pois, o nosso problema não é econômico, é político e infelizmente a mudança ainda não será tão significativa, mas é um processo. No ano passado se falava do João Dória, depois o Luciano Huck que já disse que o negócio dele é a TV. Também tem o Geraldo Alckmin, o Henrique Meirelles e o Jair Bolsonaro. Não passa disso. Mas a verdade é que os outsiders ainda não apareceram. Eles farão a diferença e, isso vale para o país e aqui para o Estado.

Mas a verdade é que os outsiders ainda não apareceram. Eles farão a diferença e, isso vale para o país e aqui para o Estado.

Marcelo Lula – Quais são os principais desafios para o próximo governador?

Udo Dohler – A situação de Santa Catarina, embora não seja de conforto, é diferente de outros estados do país. Para consertarmos as dificuldades não depende de mágica, só é preciso trabalho. Para você ter uma ideia, quando assumimos a Prefeitura de Joinville tivemos um quadro claro de dificuldade. Quando chegou em janeiro, não tinham nem provisionado o salário em dezembro. Conseguimos resolver a questão das dívidas do município, o tiramos de uma situação de insolvência, isso tudo em quatro anos. Agora, já contratamos US$ 70 milhões junto ao BID, para drenagem da Zona Sul de Joinville e a conclusão do saneamento básico da Vila Nova. Também tivemos aprovado pelo Fonplata, US$ 40 milhões, para uma ponte que ligará dois bairros importantes que fará parte do Contorno Viário Leste. Há três semanas contratamos com o Banco do Brasil um financiamento de R$ 61 milhões para o sistema viário. Vamos pavimentar 209 ruas. Para contratar esses financiamentos, é preciso ter capacidade de endividamento e isso nós conseguimos num espaço curto de quatro anos. O Estado terá que passar por uma situação parecida.

 

Marcelo Lula – Mas qual é o caminho para equacionar a questão das dívidas do Estado?

Udo Dohler – Só conseguirá isso se melhorar o sistema de gestão. Se não acontecer, a tendência é se agravar. A situação do Estado é complicada e, é preciso considerar que o governo tem feito um esforço grande para resolver essa dificuldade. Comparando com outros, Santa Catarina ainda está numa posição de relativo conforto, por exemplo, não somos insolventes, pelo contrário. Tem um passivo que precisa ser equacionado e isso se resolve com gestão. Esse será o grande desafio do próximo governador para recuperar a capacidade de investimento.

 

Marcelo Lula – O governo há tempos mantém o ICMS sem aumento, situação que tem colocado o Estado numa posição de vantagem em relação a outros, na chamada guerra fiscal quando há uma disputa por empresas. O senhor defende que se mantenha essa política?

Udo Dohler – Sobre o ICMS eu acho que o futuro governador terá que ter o cuidado para não perder a capacidade de investimento. Mas, a capacidade de competir não se limita apenas ao incentivo fiscal. Isso já atraiu empresas como a GM e a BMW que são referenciais importantes, porém, mais do que isso, é preciso fortalecer a infraestrutura. É um equívoco pensar apenas em benefícios fiscais para atrair investimentos. Se não tiver estrutura, o incentivo perde velocidade com o tempo. Se não tivemos energia elétrica, sistema viário ajustado e a capacidade portuário não crescer, nós perderemos. Santa Catarina dispõe hoje da segunda melhor capacidade portuária do país. Se olharmos para os portos de Suape no Nordeste, de Vitória no Espirito Santo e de Santos, também veremos o nosso potencial. Temos Imbituba, Itajaí, o Porto de São Francisco, sem falar no porto do Sumidouro que será o maior do Brasil. Portanto, poderemos ser entre cinco e sete anos, o segundo maior entroncamento portuário do país. Isso é mais importante do que o benefício fiscal. Não adianta dar incentivo se não temos estrutura. Olha a BR-280. Tem o porto de São Francisco hoje, com condição de oferecer o dobro de carga que oferece atualmente. Além disso, temos que dobrar de tamanho o porto de Itajaí, não existe outro local mais adequado para portos no país que Santa Catarina.

A capacidade de competir não se limita apenas ao incentivo fiscal

Marcelo Lula – Mas os incentivos fiscais devem ser descartados?

Udo Dohler – O incentivo é importante, mas, ele por si só não é suficiente. Se olharmos Joinville, temos energia elétrica com capacidade para triplicar o atendimento, sobretudo nesse momento que a economia cresce junto com a população. Água, temos para triplicar, portanto, se o Estado tem capacidade portuária, água e energia elétrica, é tudo o que o investidor precisa. A posição geográfica também é importante. Também é preciso falar dos aeroportos, um exemplo é o de Florianópolis que será uma referência.

 

Marcelo Lula – E para o Oeste, de que forma se deve incentivar o desenvolvimento?

Udo Dohler – Podemos pegar o exemplo de Chapecó, que derrepente explodiu e começou a crescer. O sistema rodoviário hoje, é suficiente, mas o ferroviário é indispensável para o futuro. Temos que olhar para mais de quatro anos. O Brasil vai ter que trabalhar com esse modal e Santa Catarina será a bola da vez. Essa ferrovia ninguém mais fala nela, enquanto isso, o Paraná representado no Congresso Nacional, tem avançado nessa questão. Temos a melhor distribuição demográfica do país, com o Sul, o Norte e o Oeste que vai explodir em crescimento.

O sistema rodoviário hoje, é suficiente, mas o ferroviário é indispensável para o futuro.

Marcelo Lula – A segurança também é uma preocupação da população. O que é preciso fazer?

Udo Dohler – A segurança é a chave de tudo. As cidades ficaram violentas e a população está insegura. É claro que é preciso avançar, mas, não está ai o problema. Essa é a solução de curto prazo, pois, é preciso investir na educação. É preciso saber o que acontecerá nas próximas décadas e se não tivemos essa atenção, tem um enorme contingente de jovens que não estará preparado para mais adiante. Essa é a grande dificuldade. Eu sei que a segurança é importante, é preciso que o estado fique mais tranquilo e as cidades mais seguras, mas, se não deixamos preparada essa juventude para o futuro, o problema será maior.

 

Marcelo Lula – Ser empresário lhe dá alguma vantagem, por fugir um pouco do perfil do político tradicional?

 Udo Dohler – Nessa eleição será importante observar, como o eleitor enxerga o candidato. Não existe diferença na gestão pública e privada. Recebi críticas por dizer isso, de quem diz que a gestão pública é complicada. Mas hoje vemos que o problema não é somente no setor público. Temos políticos na cadeia, mas também tem empresários. O importante é prevenir o desvio de conduta, caso contrário, o clientelismo continuará e seguiremos no marasmo parando de crescer e perdendo competitividade. Acharmos que somos uma ilha é uma tolice, pois, a internet não vai até Fernando de Noronha, ela vai para o mundo inteiro. Se não tiver a disposição e o convencimento, continuaremos como estamos.

 

Marcelo Lula – O senhor pensa em renunciar para estar apto a ser candidato a governador?

Udo Dohler – Claro que existem condições que fazem parte do processo eleitoral. Não estou preocupado agora com isso. Fui eleito prefeito de Joinville e reeleito. Tinham oito candidatos no primeiro turno e no segundo, nenhum me apoiou e mesmo assim, ganhamos a eleição com um relativo conforto. Tenho um compromisso forte com o eleitor joinvilense e não irei desapontar, mas, por outro lado, seria uma insensatez, um desrespeito com o eleitor que me deu a sua confiança, ficar distante da eleição deste ano. Joinville é um grande polo, tem que ter uma participação ativa na Assembleia Legislativa, eleger um senador e também vamos eleger o governador. E se não assumirmos esse compromisso, não estaremos honrando o voto que o eleitor nos deu. Se for a tríplice, eu tenho esse compromisso.

 Seria uma insensatez, um desrespeito com o eleitor que me deu a sua confiança, ficar distante da eleição deste ano.

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